Circle cai 20% após regras para stablecoins e auditoria da Tether
A Circle, empresa responsável pela segunda maior stablecoin do mundo, o USDC, enfrentou um dia complicado recentemente. As ações da empresa caíram 20% em apenas um dia, num cenário que só tende a se tornar mais desafiador. Isso aconteceu devido à pressão regulatória crescente nos Estados Unidos, que pode ameaçar a estrutura de recompensas que atrai tantos investidores. A ação caiu para cerca de US$100 (cerca de R$600), impulsionada por novas legislações que podem proibir o pagamento de rendimento sobre stablecoins. Além disso, a concorrente Tether anunciou que está avançando com auditorias de empresas renomadas, diminuindo a vantagem de transparência que a Circle sempre teve.
A grande questão agora é: estamos apenas vendo um ajuste temporário na legislação ou pode isso significar o fim de um modelo de negócios que transformou as stablecoins em uma forma de renda passiva? O impacto do chamado ‘Clarity Act’ está fazendo com que investidores reconsiderem sua estratégia com o USDC, que poderia deixar de ser uma forma de rendimento e passar a ser uma simples opção de liquidez. Quando a confiança em um modelo de receita se abala, como já discutido anteriormente, a reação do mercado costuma ser rápida e intensa.
Contexto do mercado
Para entender o que está acontecendo, é necessário olhar para a estratégia de longo prazo da Circle. Desde que o USDC foi lançado em 2018, a empresa se posicionou como uma alternativa mais regulada em relação à Tether, que já enfrentou críticas pela falta de transparência. A Circle investiu em conformidade e transparência, mirando até uma abertura de capital e uma maior integração com o sistema bancário tradicional. Mas agora, essa segurança está sendo questionada, especialmente após a Tether anunciar processos de auditoria que igualam a concorrência.
O cenário legislativo nos EUA também mudou. O que parecia ser um apoio à regulamentação das stablecoins virou uma batalha com os grandes bancos. Eles argumentam que, se as stablecoins começarem a pagar juros, estarão funcionando como depósitos não regulados, o que poderia prejudicar a economia real. Assim, uma nova proposta legislativa está sendo considerada para restringir essas recompensas.
Essa situação traz um paradoxo: a regulamentação que a Circle buscava pode vir com regras que limitam o que a empresa pode oferecer ao varejo. Enquanto há um interesse institucional significativo nesse mercado, as novas regras podem favorecer modelos que não competem diretamente com as contas de poupança dos grandes bancos.
O que está por trás dessa movimentação?
Imaginemos a Circle como uma empresa que emite “Vales-Alimentação Modernos” (o USDC). Antes, uma das grandes vantagens desses vales era o “bônus” mensal que você ganhava ao manter um saldo na plataforma, atraindo muitos usuários que viam essa possibilidade como um investimento superior à poupança.
Agora, no entanto, os legisladores e bancos estão dizendo: “Espere um pouco. Se esse vale paga rendimentos, na verdade, é uma conta bancária disfarçada”. A nova legislação proposta poderia impedir que as plataformas oferecessem esses “bônus”. E se isso acontecer, muitos usuários podem optar por deixar de lado o USDC e buscar outras formas de investir.
A situação se complica ainda mais com a Tether, que sempre foi vista como uma opção menos segura, agora buscando uma auditoria de peso. Isso faz com que a Circle perca seu diferencial de segurança e ainda enfrente a possibilidade de não conseguir oferecer os incentivos financeiros que antes atraíam investidores.
Quais são os dados e fundamentos destacados?
De acordo com analistas, alguns dados ajudam a entender a dramática desvalorização das ações da Circle:
- Queda das Ações (-20%) — “O Choque de Realidade”: As ações da Circle mergulharam para a faixa de US$ 100, refletindo o receio de que a proibição de recompensas impacte gravemente a receita futura.
- Receita da Coinbase em Risco (~20%) — “O Efeito Dominó”: A Coinbase, principal parceira da Circle, também sofreu perdas. Cerca de 20% da receita da exchange depende do ecossistema USDC, ligado às recompensas que estão sob ameaça.
- Reservas de Rendimento (US$ 1,68 bilhão) — “A Fonte Secando”: A Circle gerou US$ 1,68 bilhão em receitas em 2024, principalmente de juros sobre as reservas que lastreiam o USDC. Caso o interesse pelo USDC caia, essa receita também pode diminuir.
- Exigências do Clarity Act — “O Freio de Mão”: A proposta legislativa busca proibir rendimentos sobre “saldos passivos”, complicando ainda mais o cenário para as stablecoins.
Assim, vemos um quadro preocupante, onde a vantagem regulatória da Circle se torna uma vulnerabilidade em um ambiente tão incerto.
O que muda na estrutura do mercado?
A queda da Circle sinaliza uma transformação significativa no mercado de criptoativos: um provável fim da era da “renda passiva fácil” através de stablecoins. Enquanto a Circle se esforça para seguir as normatizações e acaba penalizada, o setor se fragmenta. Por um lado, a Tether, buscando melhorar sua imagem, investe em auditorias para atrair investidores institucionais que temem o risco regulatório. Do outro, os grandes bancos tradicionais estão dando seu passo adiante e aproveitando sua infraestrutura já estabelecida.
Se a legislação limitar a capacidade das criptoempresas de oferecer rendimentos, os bancos tradicionais ganham uma vantagem significativa, pois já têm a autorização necessária para produtos remunerados. A Circle pode ficar encurralada entre a concorrência menos regulamentada da Tether e a segurança oferecida pelos grandes bancos.
Além disso, a decisão da Tether de investir em auditorias robustas mostra que a maior stablecoin não pretende ceder espaço tão facilmente. A estratégia da Tether, que procura se adequar minimamente às exigências de transparência, pode se mostrar mais resistente no curto prazo em comparação à abordagem completamente regulada da Circle, que agora é alvo das leis americanas.
Como isso afeta o investidor brasileiro?
Para o investidor brasileiro que frequentemente usa stablecoins para proteger seu patrimônio e buscar rendimentos superiores à inflação, as últimas notícias trazem um sinal de alerta sobre a continuidade dessas vantagens.
Primeiro, a usabilidade e rendimento do USDC estão em risco. Muitos brasileiros mantêm seus USDC em exchanges ou plataformas de DeFi em busca de rendimentos de 5% a 10% ao ano. Se as novas leis forem aprovadas, as plataformas que operam com liquidez americana podem ter que encerrar esses programas de recompensa, o que transformaria o USDC em um ativo meramente estável, sem rendimento adicional.
Em relação ao preço e conversão, a paridade do USDC com o real não deve sofrer alterações diretas, mas a instabilidade nas ações da Circle adiciona um risco. Se a empresa enfrenta dificuldades financeiras, sua capacidade de operar pode ser comprometida.
Do ponto de vista tributário, é fundamental estar ciente das obrigações locais. A posse de stablecoins é considerada um ativo financeiro que pode ser tributado. A nova legislação prevê um imposto de 15% sobre rendimentos no exterior. Além disso, as trocas mensais em exchanges nacionais costumam ter isenção para ganhos de capital até R$ 35.000, mas a Receita Federal está cada vez mais rigorosa com isso. Caso haja rendimentos em USDC, eles precisam ser declarados, o que pode complicar a situação para muitos.
Diante disso, a melhor estratégia é a diversificação. Não coloque todo seu dinheiro em uma única stablecoin, especialmente em tempos de incertezas regulatórias.
Riscos e o que observar
- Aprovação do Clarity Act — “A Canetada Final”: Se o projeto de lei for aprovado sem mudanças, o modelo de negócios de muitas plataformas terá que ser totalmente reestruturado.
- Auditoria da Tether — “O Xeque-Mate da Concorrência”: Se a Tether conseguir uma auditoria completa e aprovada, a segurança da Circle poderá ser questionada, levando investidores a migrar para o USDT.
- Volatilidade da Coinbase — “O Risco Sistêmico”: Como principal parceira da Circle, qualquer dificuldade na Coinbase pode afetar a liquidez do USDC.
É importante acompanhar as notícias sobre a proposta legislativa e como as grandes exchanges reagirão às possíveis mudanças. Por agora, a paciência é a melhor estratégia.





